objetos allados

cláudia ahimsa

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poemas frutas amarelas
poemas frutas amarelas

imagem: still life com joia de papel sobre ramo de amendoeira em flor no copo, v gogh, broche de papel, colagem-relebo, 3x3cm, f.g.

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“o luto é como um jet lag, mas que não passa antes de dois anos.
no primeiro ano, com os mais de dez sintomas, eu pouco saía do quarto. às vezes, atraída por um amarelo e outro (o amarelo foi meu cão-guia quando cada olho só enxergava com nitidez a própria lágrima), eu ia e movia peças de lugar formando pares híbridos, logicamente inconformada com a nova realidade ímpar –– singullar –– disse de mim para comigo. e juntava cadeira com cocar, louva-a-deus de taxidermia com cebolas pintadas.

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natureza-morta com chocolate 3x3, aranha-da-seda-dourada, besouro folha-de-ouro, escorpião dourado e louva-a-deus dourado, taxidermia/resina epóxi
sobre natureza-morta com um prato de cebolas, v. gogh, assemblage.

um pequeno drone me ajudava a deparar com certos objetos pela casa –– antecedida pelo joystick e pelo zumbido do motor doía menos... a jaqueta do gullar na cadeira da varanda ainda se movia em brisa de jasmim
e maresia...

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campo de pouso, mini drone
sobre campo de flores amarelas, v. gogh, fotografia.

assim, a partir do que os objetos sugeriam e do que a nano câmera voadora me instigava a escrever, assemblar e fotografar, fui de natureza-morta a objetos allados. (allados: com os dois eles dele.)

é a primeira vez que um drone participa da contextura de um livro

de poemas.

embora a morte seja um dos grandes temas da poesia, dentro do possível, cuidei para que o livro do luto não fosse pesado em tempos já duros demais para a comunidade terrestre.
entreguei para a urucum um livro em prosa e outros textos publicados de 2020 para cá; a editora compreendia o adiamento deste. o luto do mundo abrandaria no próximo ano. e veio a guerra.

–– e se não tiver costura? –– propôs lucia.
e reformatamos o projeto: páginas soltas, poemas numerados para não embaralhar, numa caixinha entintada de amarelo. leve assim.

tudo que tive e tenho em comum com gullar está aqui: a poesia que nos uniu, a arte que nos expande para além da obrigação de morrer.
ele sabia, ao me dedicar cadernos de desenhos, livros, poemas, joias
de papel, que mais dia menos dia, tudo seria posto para voar por aqui. mas van gogh, em 1889, nem sob delírio imaginou seu campo de flores amarelas transformado em heliponto para um mini drone amarelo. “

Cláudia Ahimsa
Em nota Pós-escrita, Objetos Allados

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